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Sacudindo a poeira

Sacudindo a poeira
Autorretrado em Beirute, Líbano, 2024

A fotógrafa carioca Fernanda Liberti sempre quis ter uma família grande. Filha única, brotou de uma árvore genealógica cujos galhos se afinavam nas extremidades. Daí sua felicidade ao se encontrar um dia dentro de uma igreja no vilarejo de Sednaya, na Síria, cercada de parentes que tinha descoberto minutos antes.

“De repente, estava cercada por duas famílias que gritavam”, ela ri. Os dois ramos — os Khouri de seu bisavô e os Mansur de sua bisavó — disputavam para ver na casa de quem Liberti dormiria naquela noite.

Aquela viagem à Síria de seus antepassados lhe rendeu não só novos parentes, mas também um projeto artístico. As fotografias que tirou e os objetos que coletou se transformaram na mostra Poeira da Casa, realizada em 2024 em Milão.


Meia Noite em Hama, autorretrato, Hama, Síria, 2024

Em uma imagem, aparece uma mulher ajoelhada em uma cadeira de madeira marchetada com madrepérola. Em outra, marcas de tiro dentro da igreja Um Al Zenar, em Homs, na Síria. Imagens de Jesus Cristo e de Maria destruídas pelo Estado Islâmico. Sombras e prateleiras vazias em um museu de Palmira.

Aos 32 anos, direto de Atenas, onde vive, Liberti conta à revista ZUM como tudo isso aconteceu.

Família Khouri no Rio de Janeiro, circa 1950s. Fotógrafo desconhecido

A jornada começou antes mesmo de ela nascer. Foi em algum momento dos anos 1930, quando seus bisavôs, Nayef Khouri e Mariam Mansur, decidiram deixar a Síria e imigrar para o Brasil. Veio com eles parte da família, enquanto outras linhagens ficaram na terra natal ou se dispersaram pelos Estados Unidos.

A viagem pelos oceanos era àquela época, sem dúvida, uma aventura. Mas também já era uma experiência relativamente comum entre os habitantes do leste do Mediterrâneo. Estima-se que, a partir de 1870, cerca de 150 mil imigraram do Levante para o Brasil, formando uma das maiores comunidades árabes fora do Oriente Médio.

Apesar de hoje chamarmos essas pessoas por palavras como “sírio”, “libanês” e “palestino”, essas identidades nacionais ainda estavam em formação na virada do século. A região fazia parte do Império Otomano, cuja capital era Istambul. Foi a Primeira Guerra Mundial, travada de 1914 a 1918, que fez ruir aquele império, substituído primeiro pelos colonizadores franceses e, só nos anos 1940, pelos Estados da Síria e do Líbano.


Casa em Sednayah, Síria, 2024

Havia muitas razões para deixar a terra natal. O colapso do mercado da seda havia empobrecido a região. Mais tarde, o conflito mundial provocou uma epidemia de fome. A ideia de tentar a sorte no além-mar se espalhou.

Liberti descreve os bisavôs como “sednayanos bem raiz”. Os dois tinham orgulho do vilarejo de origem, que tem um lugar particular no imaginário sírio.

Sednaya fica nas montanhas ao norte de Damasco, onde os antigos acreditavam que foi enterrado Abel, morto por seu irmão, Caim. Foi construído ali, mais tarde, um dos monastérios mais antigos do mundo — segundo a tradição local, o fundador foi o próprio Imperador Justiniano, ainda no século 6.


A casa que meus bisavós moravam na Tijuca, Rio de Janeiro, 2024

Nayef e Mariam se instalaram longe dali, no Rio de Janeiro, no bairro da Tijuca. Tiveram lojas de tecido na região do Saara, até hoje conhecida pela concentração de imigrantes árabes. Não eram ricos, diz Liberti, até porque tiveram dez filhos para alimentar. Mas se firmaram.

O bisavô era conhecido pela devoção a Sednaya. Mesmo do Rio, mandava dinheiro para a igreja do vilarejo, à qual a família diz que doou uma terra. Era também famoso porque, na sua comunidade, era um dos poucos que sabiam ler e escrever bem naqueles anos.

“Todo domingo, muitos vinham até a casa da família na Tijuca para que ele traduzisse suas cartas”, conta Liberti. Já sabiam se a notícia era boa ou ruim pela quantidade de araque — o típico destilado temperado com anis — que ele servia às visitas. “Ele era a alma da família, essa pessoa que dançava.”

Tamanha era a força da imagem de Nayef transcrevendo as cartas que, quando Walter Salles lançou seu filme Central do Brasil em 1998, a avó de Liberti estranhou. “Ora, essa é a história do seu avô!”, disse.

A avó, Luci, se casou com um homem baiano. Dessa junção nasceu o pai de Liberti, chamado Rodrigo. “As gerações foram passando”, afirma, e o contato com as origens se diluiu. “Sobrou a gritaria e a comida”, brinca.

Essa experiência é corriqueira entre os imigrantes árabes no Brasil. Em parte, como resposta à discriminação que sofreram ao chegarem ao país, muitos da primeira geração se recusaram a ensinar a língua materna aos seus filhos. Queriam acelerar sua entrada na sociedade local. Na maioria dos casos, o que restou mesmo foram as tradições alimentares (e a voz alta).


Minha tia-vó Teca Mansur (Theresa/Nazira) com as freiras no seu aniversário no Rio de Janeiro, circa 1980s, Rio de Janeiro. Fotógrafo: Pedro Mansur

Até a religião foi se perdendo. Liberti conta que a bisavó Mariam era uma católica fervorosa, dessas que vão à missa todo dia. Depois de sobreviver a uma doença que quase a levou, chegou a mudar o dia de seu aniversário para coincidir com o de uma santa. Professava o ramo melquita, aquele seguido pelos cristãos de matriz bizantina da região.

Mas a avó Luci, da geração seguinte, já não falava de igreja nem de missa. “Estava sempre fazendo topless. Só vestia oncinha, dourado e vermelho e estava sempre xingando”, conta. “A família teve uma brasilização muito grande nos subúrbios cariocas.”

Luci também não falava muito sobre o passado. Era uma mulher “glamourosa e perfumada”, “um acontecimento”, que preferia não evocar os dias mais penosos da chegada da família ao Rio. “Sua história não combinava muito com a imagem que ela queria passar para o mundo.”

Assim, perdeu-se a textura. O que salvou a memória da família foi aquele que Liberti chama de “a enciclopédia”, seu tio-avô Moisés. Era quem contava as histórias.


Recorte de São Jorge, Igreja Síria no Rio de Janeiro, 2024

Liberti veio ao mundo, assim, entre a noção desse passado sírio — e sua ausência. Cresceu no Recreio e, aos 19 anos, mudou-se para a Europa. Estudou fotografia no London College of Communication e fez mestrado no Royal College of Art, com uma pesquisa sobre os Tupinambá. Lecionou na University of the Arts de Londres.

No conjunto, seu projeto artístico mescla cenas urbanas à natureza, um provável reflexo da infância no Rio. O portfólio está repleto de nus, refletindo uma curiosidade pelo corpo humano.

Há também um interesse claro pela intersecção entre tempo e espaço, que se desdobrou, mais recentemente, na busca pela família na Síria — isto é, pelo passado e pela terra natal.

Liberti vinha pensando nisso fazia algum tempo. Até herdou de Moisés, o enciclopedista, uma série de relíquias familiares: uma caixa de madeira marchetada, um isqueiro Zippo com o nome de Nayef gravado, tecidos bordados com as iniciais dele e de Mariam e um rosário. “Moisés olhou para o meu pai e disse: ‘Vai direto para ela’”, conta. A dádiva da memória familiar pulou uma geração.


Reencontro dos Khouri, Rio de Janeiro, 2024

Formulou o projeto fotográfico Poeira de Casa em 2023, com o qual recebeu a bolsa Deloitte Photo Grant, que custearia a viagem à Síria. Meses antes de embarcar, convidou os familiares — que não se reuniam havia uma década, desde a morte de Luci em 2014 — para um almoço. Reconectados, eles criaram aquela instituição já inevitável no Brasil de hoje: o grupo de WhatsApp da família. Ela fotografou o encontro.

Entre a refeição e a viagem, Liberti quis fazer um ritual. Pegou uma garrafa de araque, como a que seu bisavô servia enquanto traduzia cartas, e levou até a rua onde ele morava antigamente na Tijuca. Deixou em uma encruzilhada, pensando em “honrar os ancestrais e pedir a Exu para abrir seus caminhos”. “Essa pesquisa acabou sendo uma jornada muito espiritual. Não tenho uma religião definida. Frequento da igreja ao candomblé, à umbanda. Sou muito espiritualizada.”

Aproveitou para ir tirando fotos da rua. Tinha medo de que alguém estranhasse e a parasse antes de chegar à casa. “Falei: ‘Se acharem que sou maluca, pelo menos já tenho uma imagem para ilustrar’.” Foi assim que chegou ao portão, onde encontrou uma senhorinha sentada na varanda. Puseram-se a prosear. Liberti lhe explicou que a família tinha morado naquela mesma casa. “Fui dando os nomes para ela entender que eu não era uma sequestradora nem estava dando um golpe nela”, conta.

“Falei isso, aquilo, tananã. Aí ela me perguntou se eu queria entrar. Eu falei que sim”, diz. Tocada, fez um vídeo para enviar ao recém-criado grupo de WhatsApp. Fez também uma selfie no banheiro.


Procurando os arquivos familiares, Sednaya, Síria, 2024

Embarcou em junho de 2024 para a Síria, que ainda vivia o rescaldo da guerra civil que deixou mais de meio milhão de mortos. Governava ainda o ditador Bashar al-Assad, que só no fim daquele ano seria deposto, encerrando décadas de poder de sua família.

Talvez surpreendentemente, a viagem correu bem. Liberti contratou uma agência de viagens, que facilitou a obtenção do visto e a colocou em contato com uma guia e um motorista.

No início, foi cuidadosa nas relações que estabeleceu na capital, Damasco. O Estado de polícia dos Assad era conhecido pela capilaridade de seus espiões e pela brutalidade. Mas, com o tempo, foi encontrando seus caminhos entre o dito e o não dito. “Venho de um país que também teve uma ditadura.”


Logo estava flanando pela cidade, fazendo amigos, fumando narguilé e tomando sol. Entrou para círculos de artistas locais e circulou pelo resto do país, onde se deparou com novas ideias de estética. Surpreendeu-a, em especial, o contraste entre a construção e a destruição e entre a vida e a morte. “Era o tempo todo um abraço e um susto”, diz. “Eu conseguia sentir os fantasmas no vento. Tudo o que eu vivi ali, eu vivi mil vezes”

Foram duas semanas de viagem e pesquisa, incluindo, por fim, a visita à Sednaya de seus bisavós. Tinha herdado uma medalha da igreja ortodoxa local e queria encomendar outras. Começou, portanto, por ali.

A freira que lhe atendeu disse que já não vendiam mais aquele artefato. Emocionada, Liberti insistiu, explicando que tinha vindo do Brasil com o objetivo de se reconectar com a família. Uma freira foi passando o problema para a outra, como um rosário de batatas quentes, até que Liberti chegou à superiora, que a recebeu em seu escritório já com três medalhas na mesa.


A medalha nova e a antiga, 2024. Foto: Gianluca Pezzato

“Peguei as medalhas e já estava feliz, já ia voltar para Damasco”, conta. Mas, depois de ter mobilizado tanta gente, Liberti tinha colocado alguma engrenagem em movimento. Intrigadas, as pessoas ao redor sugeriram que cruzasse a rua e perguntasse na igreja católica sobre sua família.

Uma vez lá, Liberti começou a recitar os nomes de seus bisavós e tataravós, como se fossem uma oração. As palavras reverberaram. “Eles conheciam a família, até porque Nayef tinha doado terras à igreja”, afirma. Arranjaram um padre que falava espanhol, o que, em parte, ajudou a cruzar as barreiras linguísticas. “Pensei: ‘Agora sim vou conseguir hablar mucho’.”


Primeira foto da família na Síria, 2024

O padre a abraçou e lhe deu as boas-vindas ao lar. Apontou para uma mulher sentada em um banco da igreja e já a apresentou: “É da sua família”. Foi quando Liberti olhou ao redor e se deu conta de que estava cercada por membros dos clãs Khouri e Mansur, que a disputavam.

Acabou que foi dormir na casa de Fawaz, um dos seus parentes recém-encontrados. Fawaz vivia no mesmo terreno onde ficava a casa original da família, aquela que um dia tinha sido habitada por Nayef e Mariam. Era uma casa de pedras abandonada, cuja chave, para angústia de Liberti, ninguém sabia onde estava.

“Eu ficava perturbando eles todos os dias”, conta. Temia ir embora sem entrar na construção. Até que, já no fim da viagem, alguém por fim encontrou a chave e abriu a porta para o passado de Liberti.

Era uma casa de teto alto, com banheiro e cozinha ao lado de fora. Tudo estava coberto de pó.

De certa maneira, daquela cena veio o nome do seu projeto artístico: Poeira de Casa. “Queria esse sentimento de uma casa que não está sendo usada, que está parada. Que foi o que aconteceu com a casa da minha família”, explica. “Mas essa poeira também é mágica. Representa a camada de coisas que foram sendo deixadas para trás.”


Autorretrato na casa do meu bisavô, Sednayah, Síria

“É a materialidade do tempo.”

Liberti tirou fotos do interior da casa e também fez autorretratos. Pouco depois, estava de volta à capital. Esticou ainda a viagem para dar um workshop a um grupo de jovens artistas sírios, que mais tarde expuseram seu trabalho no Museu Nacional de Damasco.

A fotógrafa carioca digeriu toda aquela experiência mais tarde. Entendeu que tinha sido a primeira da família a voltar à terra de origem. Seu bisavô só havia ido aos Estados Unidos, onde ficou doente e acabou passando alguns meses na casa de parentes. À Síria, ele nunca retornou. “Eu achava importante”, Liberti diz. “Como alguém que foi morar fora, não consigo nem imaginar isso de nunca mais voltar para casa.”

Tanto que Liberti voltou à Síria mais uma vez. Foi em 2025, quando passou uma semana em um mosteiro na cidadezinha de Maalula, próxima de Sednaya. Ficou com uma parente distante que descreve como “tia-avó-prima”. Foi quando viveu um dos momentos mais emocionantes dessa sua jornada artística. Um dia, fez uma chamada de vídeo com uma de suas tias no Brasil para lhe apresentar à tal “tia-avó-prima”. “Ela viu a cara da freira, disse que era a cara da mãe dela e começou a chorar.”

Liberti sente que, nestes anos de investigações e viagens, conseguiu, por fim, mapear suas origens. Era como se cada um da família tivesse consigo uma peça do quebra-cabeça — mas só ela, por fim, tinha colocado tudo junto na mesa. Havia tomado nas mãos as pontas soltas na Síria, no Brasil e nos Estados Unidos e dado um nó.


Festa da família Khouri em Sednayah, 2024

Deu-se conta, por fim, de que o tio-avô Moisés a preparava há tempos para substituí-lo no papel de enciclopédia da família. Ele faleceu no ano passado.

Em 2026, Liberti voltou mais uma vez à região. Desta vez, ao vizinho Líbano. Foi ajudar um amigo mexicano a encontrar seus familiares em Trípoli. Repetiu a estratégia de sair falando com as pessoas na rua, pedindo informações e seguindo os rastros. Teve sucesso de novo. “Acho que vou fazer um negócio de ‘trago sua família árabe em cinco dias’”, brinca.

O projeto Poeira de Casa é a expressão de todas essas experiências.

O foco está nas fotografias antigas da família e nas novas que Liberti registrou durante suas viagens. Contrasta, assim, o antes e o agora. Destacam-se as texturas das imagens e o seu enquadramento. “Sempre tive isso, essas cortinas, coisas que se revelam”, diz. Algumas das fotos estão escondidas dentro de oratórios, que precisam ser abertos para revelá-las.


A coleção de Liberti, ademais, transborda para além das imagens. As próprias molduras contam uma história. Ela as encomendou na cidade antiga de Damasco, em uma oficina tradicional. Levou-as consigo na mala. “Foi muito inspirador travar essa colaboração com a comunidade artística local”, conta.

Mandou também fazer uma caixa de madeira marchetada com madrepérola — um objeto tradicionalmente associado a Damasco. Gravou as palavras árabes “ghubar al-manzil”, que querem dizer justamente “poeira da casa”. Ali dentro guardou fotos, documentos e artefatos da família.

Hoje, sediada em Atenas, Liberti dá os próximos passos nessa enciclopédia familiar que ainda não terminou. Está escrevendo um livro que mescla a história da família com sua busca artística. Prepara também o roteiro de um filme ambientado na Síria. Tem planos de gravar já no ano que vem, se a situação política na região permitir.

“Muito foi perdido na Síria durante a guerra”, diz. Perderam-se vidas, sim, mas também memórias e objetos, como os que Liberti recolhe e retrabalha. “São coisas amadas que foram deixadas para trás, destruídas e roubadas. Como fantasmas que assombram tanto quem foi embora quanto quem ficou.” ///


Diogo Bercito foi correspondente da Folha de S.Paulo em Jerusalém e em Madri. Doutor em história pela Universidade Georgetown, é autor dos livros Brimos e Brimos à mesa, sobre a imigração árabe para o Brasil.


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