Esmeraldas não é Cohab porque tem elevador
Meus pais, aposentados, antes de se mudarem para deixar o apartamento livre para os filhos. Como a casa vivia cheia de gente, eles passavam a maior parte do tempo no quarto, lendo, assistindo a séries ou estudando idiomas variados por diversão – mas sempre juntos.
Na construção do Esmeraldas, alguém achou que ter um “quarto de empregada” na periferia fazia sentido. O fato é que muitas crianças cresceram passando pela cozinha para chegar no quarto. Nesse dia, eu estava fotografando o Formiguinha em seu “quarto de empregada” e fiquei testando seu guarda-roupa, até chegar numa combinação de cores para aquela cena. Na falta de espaço comigo ali, ele passou a se trocar na cozinha. Vi que tinha um machucado recente no ombro. Pedi para incluir a queda na história e o fotografei sem camisa ali mesmo.
A MariRua depois de desfilar pela escola de samba Filhos da Santa.
MariRua, Gabi Canutto, Melinka e sua filha Naya, Ellen, Ader e a cachorra Iúna, e João/Egito. Encontro do coletivo de dança Passos Periféricos. A Gabi uma vez descreveu suas noites com os amigos como um amontoado de gente num canto, o que me fez imaginar esse dia de diversão e tédio, em que a graça é não fazer nada demais, mas sempre com a mesma galera, só trocando de apartamento.
Lívia, Nalu Rosa, Gabi Canutto, Ágatha, Isabella e Tayná. A foto foi feita no Carnaval, quando vi que a Gabi oferecia serviço de trança no Instagram. A Ágatha me disse que faria tranças com a Gabi, então sugeri pagar pelas tranças e marcar em casa esse encontro das amigas se arrumando para sair. Hoje, vendo essa cena, lembro que antes tinha bloquinho noturno em São Paulo.
Jordan é irmão da Ágatha e da Kiara, que aparecem nesta série.
Nessa época, a Ágatha cursava direito. Hoje, ela é sócia de uma firma de consultoria jurídica em Taubaté.
Na série, me dei a liberdade de fotografar fora do Esmeraldas. Tem até foto em Osasco. O projeto foi desenhado para ter baixo custo, por isso foquei onde morava, mas o interesse sempre foi nas pessoas que eu conhecia ou queria conhecer. Não queria que o fator curioso da repetição da arquitetura dos apartamentos passasse de uma coincidência ou rima visual para a essência do trabalho. Então muitas vezes trapaceio e faço outra coisa. Nem tudo é sobre o Esmeraldas. No retrato, o Jefferson, meu primo de sangue, estava de volta ao Brasil, por um período curto, com seu marido americano, Chase. O quarto foi construído pela família do Jefferson, no terreno da casa dos pais, apenas para essa estadia.
Gabi Canutto, João/Egito, Ellen, MariRua, Rogério, Esther, Ágatha e Felipe. Anos atrás, numa noite qualquer, após uma partida de futebol, formamos uma roda de amigos em volta de um banco no pátio central. Depois de um tempo, um dos garotos se despediu para buscar uma pizza que tinha encomendado. A surpresa foi quando voltou com a pizza ao invés de levar para casa. Ele abriu a caixa e compartilhou com todo mundo. O gesto ficou na minha memória, pois não éramos próximos, e pizza era luxo, não se presenteava assim do nada. Resolvi então chamar uma galera para comer pizza no pátio do Esmeraldas, e combinei que, ao final, posaríamos para uma fotografia sobre essa história.
Cidade Prematura
por Lilia Guerra
Quando a gente se mudou pra Cohab [Companhia de Habitação Popular] em 1986, minha bronca era não morar em um “predinho”. Fincado no extremo leste de São Paulo, o complexo era composto por agrupamentos de edifícios com até cinco andares, sem elevador, e casas geminadas. Ocupamos uma dessas, chamadas embriões. Na linguagem da construção civil, significa: unidade que contém cômodos essenciais, projetada para expansão futura. Não tínhamos dinheiro para armar uma cerca de arame farpado. Que dirá, para expandir. De modo que nos viramos com o que tinha vindo pronto: um quarto com divisória simulando uma cozinha e um banheiro em miniatura. Tudo isso coberto com Kalhetão, que congelava no inverno e, no verão, absorvia o calor de tal maneira que, à noite, era preciso esperar até que as telhas esfriassem antes de nos acomodarmos sob o teto baixo. Nossa propriedade não tinha muro. Éramos quatro mulheres em diferentes faixas etárias. Vó, mãe, minha irmã, que era um bebê, e eu, em meus experientes dez anos de existência.
Nos primeiros tempos, a Cohab foi uma mina pra quem quis cavar. Passava gente oferecendo coisas pra vender o dia inteirinho que Deus dava. Gabinete pra pia, box Blindex, campainhas, grades, varais. Telas, rodinho pra porta, carpete, lustres espalhafatosos. Aparecia uma moda a cada temporada. Me lembro da época do quartzo. Quase todo mundo lá na rua aderiu ao tal revestimento colorido de parede. Ficava brilhante, parecendo que tinha purpurina misturada a uma espécie de tinta. Tinha o pessoal das antenas parabólicas, os vendedores de colchão e de enxoval em geral. Um jogo de panelas dessas de fundo tão fino que a comida queima ainda no refogado podia custar o equivalente a seis sacos de cimento ou a uma caixa-d’água. O idioma financeiro em nosso cazuá, durante um bom período, era traduzido em itens pra reformar ou construir. A mãe fazia listas e cálculos. De quando em quando, um curioso aparecia com uma trena e um bloquinho pra orçar a construção de dois cômodos com laje, o sonho dela. Eu ficava com pena e pensava: medir outra vez… o terreno não cresceu, tá do mesmo tamanho.
O dia em que ela conseguiu contratar a instalação de uma porta sanfonada foi um evento. Na feira de domingo, um camarada deixava o mostruário montado na calçada, e a parafernália tomava todo o espaço da passagem. Tinha o catálogo das persianas, sendo possível escolher entre 48 estampas diferentes, e o das tais portas. Mãe ficou interessada. Chamou o homem, que largou a marmita pela metade, tomou um talão e fez a entrevista:
– É para porta padrão da Cohab ou precisa fazer sob medida?
Ela se colocou muito séria para a negociação.
– É padrão.
– Então, a senhora escolha a cor e me diga o endereço. Foi, de fato, um acontecimento.
Na data combinada, vó expulsou a gente da cama bem cedo e passou a vassoura no chão do quartinho. Fora incumbida de receber o prestador de serviços. A mãe deixou o dinheiro da primeira parcela, tudo certinho. Quando ele estacionou o Fusca na frente de nossa residência, o vizinho da direita ficou de butuca pra saber do que se tratava. Se achegou como quem não queria nada, assuntando. O profissional foi orientado a subir. Na casa havia um lance de escadas, o que prejudicou a mobilidade da vó. Ela tinha reumatismo, as pernas não funcionavam direito. Bom, fomos acompanhar a instalação da peça, como a mãe havia recomendado.
– Vejam lá se ele vai fazer serviço porcaria. Fiquem em cima!
Eu não entendi muito bem o que podia ser um serviço porcaria para a colocação de uma porta. Mas, quando voltou no fim de semana seguinte, a mãe reclamou de uns pingos de cola no batente, e a vó ficou chateada por não ter percebido e reclamado. Ela e o tiozinho trocaram muita ideia tomando chá de cidreira, enquanto a montagem se desenvolvia. Soubemos que era viúvo, tinha quatro filhos, dois netos e morava em uma chácara perto dali. Mas tinha planos de voltar para a sua cidade natal na Bahia. Virava e mexia, a gente via uma porta daquelas num monturo. Se decompunham e acabavam descartadas.
Quebrava uma ripa, e todas as outras iam se soltando. Caía o trinco. Assim como o quartzo, que desbotava com a ação da temperatura. Como os antenões, que logo se tornavam obsoletos. Eram muitos os resquícios de alegrias passageiras amontoados pelas esquinas.
A vó costumava dizer que eu fiquei preta mesmo depois que a gente se mudou pra Cohab. Que, antes disso, eu podia entrar na fila dos indecisos. Tinha vezes em que ela estava falando com alguém sobre um assunto nada a ver e, do nada, dava um jeito de introduzir:
– O pai dela é branco, sabe?
Era mais ou menos assim:
– A senhora acha que chove amanhã?
Ela respondia analisando o céu:
– Parece. Com o sol sem refresco que bate aqui, não dá outra. Lá onde a gente morava antes, não era assim, não. Tanto que ela se queimou de uns tempos pra cá.
Apontava pra mim e continuava:
– O pai dela é branco. Já te contei?
O frio que fazia na Cohab também não estava no gibi. Penso que era por causa das árvores. Havia extensões de mata fechada, dava pra ter feito uma reserva. Pelas quatro da tarde, subia a serração. Hoje, isso já não acontece. As áreas foram desmatadas e ocupadas de forma desordenada.
Os predinhos também não tinham muro, os moradores é que movimentaram o rateio pra fechar. Aparecia sempre um síndico nato que tomava a frente. Peregrinava pelos depósitos pra fazer estimativas e reunia o pessoal pra decidir como rachariam o montante, incluindo o pagamento do mestre e dos serventes. Os projetos se desenvolviam ali. Sem alvará, sem fiscalização. A escala para a oferta de refeições aos trabalhadores era definida previamente.
– Dona Santina na segunda, dona Perla na terça. Na quarta, a moça do 14b falou que se responsabiliza, porque é dia de folga dela. O seu Hermínio e o Carlão vão bancar a mistura na quinta, e, na sexta, dona Perla disse que cozinha de novo. Quem mora no térreo fica encarregado de garantir água fresca e café para os operários. Rezar pra ninguém se acidentar, viu? O contrato foi feito só de boca… Vão erguer os muros, depois armamos outro corre para a pintura. Temos que procurar um serralheiro, mandar fazer o portão social e o da garagem. Na próxima reunião, vamos decidir esse negócio das vagas. Acho bom dar prioridade pra quem tem carro. Na sequência, a gente procura entender a necessidade de cada um e resolve se é melhor rodiziar as vagas. Todo mundo entendeu pra que serve o valor do condomínio? É pra pagar água, luz da escada e a dona Perla, que vai limpar os corredores e organizar a lixeira uma vez por semana. Pra quem usar espaço de garagem, vai ficar um pouco mais caro.
Eram mais ou menos essas as pautas discutidas.
A colega me recepcionou na portaria e atravessamos o pátio para alcançar o Bloco c. Cruzamos com uns pequeninhos no chute a gol. Umas tias conversavam sob o sol das 11 horas da manhã, gatos e cachorros se esticavam. Passamos pelo varal coletivo. Lençóis, mantas, toalhas, cobertores. Peças que não cabiam nos Secalux da vida. Dava pra ouvir o chiado das panelas de pressão e sentir o cheiro de arroz e feijão cozinhando. E de Plaza e Hollywood. Cândida, ODD, Zulu e Cardeal. Os sons também escapavam: a Santa Missa em Seu Lar, o culto diário, o jornal do meio-dia, Flashback FM.
O apartamento ficava no quinto andar, mas não senti nenhuma dificuldade pra subir. Se fosse hoje, eu não sei se dava conta. Boa parte da população que se mudou para os predinhos, preenchendo os últimos andares, nos idos anos 1980, continua morando no mesmo lugar. Seguem transportando volumes escadaria acima e precisam lidar com a redução de mobilidade. Tem muita gente que evita sair de casa para não enfrentar esse obstáculo. Como aconteceu com a vó que, praticamente, encerrou sua vida social, isolada por causa das escadas. Precisou ser removida com auxílio e aparato muitas vezes. Doía nela, dava pra sentir que doía.
Posteriores aos primeiros conjuntos, existem alguns projetos administrados pela Cohab/SP em que os prédios contam com elevador. As pessoas ficam achando que eles são geridos por outra instituição. Quase todo mundo supõe que, se tem elevador, não é Cohab.
Chegamos. O piso da sala tinha carpete. Uma cortina varre-chão com aqueles cordões de pompons gigantes nas pontas enfeitava a janela. As paredes brilhavam, revestidas de quartzo. Não faltou o lustre estrambólico. No banheiro, tinha box, porta sanfonada e pia com gabinete. Ela me serviu água de um filtro preto, quadrado, que mais parecia um rádio. Um homem tinha batido palmas lá em casa, oferecendo um daqueles. Vó ficou interessada, mas tinha que dar um sinal e ir pagando as promissórias por mês, e ela não alcançou. Seguimos usando nosso velho filtro de barro mesmo.
Eu pirava em ter uma sala como aquela. Por isso, lamentei tanto quando a mãe arrematou a chave da mão do atravessador e escolheu o embrião, e não um apartamento. Nunca fomos contempladas nos sorteios dos inscritos no programa de habitação popular. Ela teve que negociar uma chave quando não conseguiu mais arcar com o aluguel da toca onde nos abrigávamos no cortiço. O repasse era considerado ilegal. O morador que desistia do imóvel devia devolvê-lo ao governo para que fosse novamente disponibilizado, respeitando a fila de espera. Mas a mãe não sabia disso. Quando ouviu dizer que tinha gente vendendo chaves, implorou pra patroa adiantar o valor equivalente e ir descontando do ordenado todo mês, até quitar a dívida. A mulher se compadeceu do desespero dela e aceitou. O drama seguinte era esperar que a companhia ajustasse a situação documental. Eu me lembro da vó chorando e acendendo vela pra não expulsarem a gente da casinha. A mãe queria assumir o financiamento de 25 anos. Não pensava em morar de graça, não. Tempos depois, obteve o direito de ter o carnê transferido para o seu nome legalmente. A lei determinou que a prioridade era de quem já estava morando. No nosso caso, era só a mãe trabalhando. O valor da aposentadoria da vó era simbólico. Uma mulher sozinha, duas crianças, uma idosa. Regularizaram a documentação, e ela assumiu a dívida.
Minha amiga tinha a cor de pele muito parecida com a minha, e eu pensei: o pai dela deve ser branco. Eu achava que todo homem branco que fazia filho com uma mulher preta, ninguém via. Tipo a lenda do boto. Eu, pelo menos, nunca tinha visto o meu pai. Quando entrei no apartamento dela, veio a surpresa: ela tinha pai. E ele era preto. Estava compenetrado, assistindo ao noticiário. Vestia um uniforme, acho que era motorista de ônibus. Logo se levantou. Abriu a porta de um dos quartos pra pegar alguma coisa, e pude ver a cama de casal tubular cor de vinho coberta com uma colcha de matelassê.
A mãe era louca pra ter uma cama daquelas, réplica de um modelo que era febre na época. Mas, no nosso embrião, não cabia cama de casal – o que não era um problema, porque lá não morava nenhum casal. A gente tinha um beliche e um sofá-cama. Desde que nos mudamos, a mãe quase nunca dormia em casa. Passava a semana no trabalho e vinha no domingo de manhã. Íamos à feira, ao mercadinho, ela via o que estava faltando e repunha conforme a carteira permitia. Deixava uma bandeja de ovos, umas misturas de meio quilo, frutas, café. Um pedacinho de fumo, pra vó encher o cachimbo e fazer sua devoção às seis horas da noite. Ela gostava tanto de pitar ouvindo a ave-maria.
O pai da colega saiu do quarto uns dez minutos depois, carregando a bolsa a tiracolo. Sacou uma nota da carteira, deixou sobre um móvel e se despediu. Antes de ir, recomendou à esposa:
– Vê se come um pouquinho!
Ela não respondeu.
Recusei o convite pra almoçar. A vó não ia gostar de saber que dei trabalho na casa dos outros. A colega foi comer na cozinha, e eu comecei a ajeitar os materiais para a confecção do trabalho. Alguém aumentou o volume do som em um dos apartamentos do predinho. A canção fez carinho no meu rosto:
Hoje o céu está tão lindo… vai chuva!
Hoje o céu está tão lindo… é primavera! Vai chuva…///
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A série Esmeraldas não é Cohab porque tem elevador (2017-26) foi criada como parte do projeto Fotografia Popular Brasileira, com apoio do Programa Valorização de Iniciativas Culturais (VAI), da Secretaria Municipal de Cultura e Economia Criativa de São Paulo. Produção: Nalu Rosa e Rogério Teles de Melo.
Renan Teles (São Paulo, SP, 1986) é fotógrafo e artista multimídia. Participou da 36a Bienal de São Paulo (2025) com o coletivo Vilanismo. Realizou as exposições Esmeraldas não é Cohab porque tem elevador (2021), no Centro Cultural São Paulo, e Fotografia popular brasileira (2018), na Oficina Cultural Oswald de Andrade, em São Paulo.
Lilia Guerra (São Paulo, SP, 1976) é escritora, roteirista e auxiliar de enfermagem. É autora de Amor avenida (Patuá, 2014), Rua do Larguinho e outros descaminhos (Patuá, 2021), O céu para os bastardos (Todavia, 2023), finalista do Prêmio São Paulo de Literatura em 2024, e Perifobia (Patuá, 2018; Todavia, 2025).
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