Fotoperformance popular


Conheci Alex Oliveira (1987, Jequié — BA) em um encontro virtual realizado no contexto do 1º Prêmio de Fotografia do Instituto Adelina (2021), conduzido pelo curador Ronaldo Entler. Estávamos entre os finalistas: eu, com a série Eu sumo daqui para existir em outro lugar (2020); ele, com Aurora (2020–2021), trabalho inspirado em sua mãe. Muitas das produções concorrentes dialogavam com uma atmosfera compartilhada daquele momento: os atravessamentos da pandemia, a experiência da casa, a proximidade dos corpos e dos afetos, e os modos de conviver com aqueles que passaram a habitar nossos cotidianos de maneira mais intensa.
Foi apenas depois, acompanhando seus movimentos pelas redes sociais, que encontrei Fotoperformance Popular (2019–). Lembro de ter ficado impressionada com sua pesquisa que, àquela altura, já atravessava cerca de três anos de existência. Recentemente, conheci Alex pessoalmente durante a abertura da exposição dessa série no Espaço Porto, na Vila Madalena, em São Paulo. Nossa conversa me fez retornar a questões que já me acompanhavam e despertou o desejo de reunir algumas notas surgidas desse encontro.


A partir de um estúdio móvel montado em ruas, praças e outros espaços urbanos, Alex cria uma situação em que ambulantes, trabalhadores autônomos, passantes, amigos e tantas outras gentes podem experimentar modos de aparecer diante da câmera. Diante de fundos coloridos, objetos cotidianos ganham nova espessura: ferramentas de trabalho, sacolas de mercado, frutas, placas, plantas ou máscaras tornam-se extensões de uma presença que se reinventa diante da câmera. Embora muitas das cenas sejam conduzidas pelos próprios participantes, o fotógrafo por vezes intervém, sugerindo gestos, composições ou deslocamentos que ampliam a narrativa da pesquisa.



Interessa-me, então, perceber como o trabalho transborda a imagem produzida — aquela que, na maioria das vezes, nos alcança pelas redes sociais, pelas exposições ou pelos lambe-lambes espalhados pela cidade. Após cada sessão, os participantes recebem um postal com sua própria fotografia, um retorno aos contextos que ajudaram a produzi-la. Há algo que escapa ao enquadramento e permanece circulando entre os envolvidos. A obra parece constituir-se tanto pelas fotografias quanto pelos vínculos que produz e sustenta ao longo dos anos: pela porosidade dos encontros, pelas tensões, pelas negociações, pelos gestos de coautoria e pelas formas de cuidado necessárias para que continue existindo. Mais do que um conjunto de imagens, Fotoperformance Popular opera como um campo relacional em circulação-construção.
Existe algo de radical nesse gesto aparentemente simples. Em meio ao ritmo acelerado das cidades, às jornadas de trabalho e às demandas que atravessam a vida de quem depende diariamente do transitar pelas ruas para garantir sua sobrevivência, o projeto produz uma breve interrupção. Não se trata de suspender completamente a realidade, mas de abrir uma fresta em seu curso habitual e, sobretudo, acolhê-lo de outra maneira. Por alguns instantes, o vendedor ambulante deixa de ser reconhecido somente por aquilo que vende; o trabalhador autônomo deixa de ser reduzido à função que exerce; o passante deixa de ser apenas alguém em travessia. A câmera é um convite para experimentar outros modos de aparecer.



É nessa suspensão que o tempo parece adquirir outra espessura. Não o tempo acelerado da produtividade, orientado por metas e resultados, mas um tempo compartilhado, produzido no encontro entre pessoas que, muitas vezes, jamais voltariam a se cruzar. Há uma delicadeza na disposição de parar, conversar, escolher um objeto, experimentar um gesto, sustentar um olhar — ações que exigem algo cada vez mais raro: disponibilidade. A fotografia nasce desse acordo provisório entre corpos que aceitam permanecer juntos por alguns minutos diante de uma experiência comum.
Ao longo dos anos, a insistência de Alex em retornar às ruas, remontar seu estúdio e encontrar outras pessoas fez com que a pesquisa acumulasse não apenas imagens, mas camadas de convivência. Por isso, o trabalho me interessa menos como um conjunto de fotografias e mais como um exercício de duração. Cada novo encontro amplia uma trama já existente, fazendo com que a pesquisa se construa simultaneamente no tempo e nas relações que a sustentam.



Em um campo atravessado pela produtividade e pela exigência de visibilidade constante, há algo potente nessa aposta na continuidade — em reivindicar a demora, a intimidade e a confiança como parte do fazer artístico. Relações precisam ser cultivadas, conversas amadurecem lentamente, e certas imagens só encontram sua potência quando atravessadas pela experiência compartilhada. Nesse sentido, Fotoperformance Popular afirma que a repetição do gesto também pode ser uma forma de criação.
Volto, então, às fotografias de Alex. Não apenas ao seu teor estético, mas ao que carregam de negociação, convivência e duração. Há nelas algo que resiste ao desaparecimento imediato: vestígios de conversas, retornos e deslocamentos que não se deixam capturar inteiramente pelo enquadramento. O trabalho parece nos recordar que algumas formas de estar junto, assim como algumas obras, dependem menos da urgência da chegada do que da disposição para permanecer tempo suficiente à escuta. ///
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Fotos da série Fotoperformance Popular (2019 – ), de Alex Oliveira, cortesia do artista
Camila Fontenele é pesquisadora, curadora, fotógrafa freelancer e artista visual. Mestre em Estudos da Condição Humana pela UFSCar, com especialização em Cinema, TV e Vídeo (Belas Artes/SP) e bacharelado em Comunicação Social (UNISO), investiga as relações entre corpo, fabulação especulativa e interespécies, desdobrando fricções entre o eixo humano e o monstro e no alargamento de imaginações para outras formas de existir. Sua prática articula pesquisa, curadoria e criação atravessadas por temas como descanso, corpo gordo, relações além-humanas e metodologias oceânicas.
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