Sobre fotografia e família
Rajyashri Goody nasceu e cresceu na cidade de Pune, na Índia, em uma família meio Dalit e meio inglesa. Seu pai mudou-se do Reino Unido para a Índia nos anos 1970. A viagem tinha como propósito fotografar o movimento budista Dalit, organizado pelo Dr. B. R. Ambedkar, do qual também fazia parte. Depois do casamento dos seus pais, em 1984, sua mãe, tios e tias começaram a fotografar. Entre as memórias da infância, ela lembra que a mãe tinha um carinho especial por fazer fotos e o pai se dedicava a escanear as fotos de família deles.
O termo Dalit significa “oprimida(o)”, “quebrada(o)” ou “esmagada(o)” a ponto de perder a própria identidade. Ao longo do tempo, este termo foi apropriado pelas pessoas (também referidas como Harijans, ou “Intocáveis”) para reivindicar o fim da opressão promovida pelo sistema de castas. Surgido em 1956, o movimento budista Dalit é um movimento religioso e sociopolítico na Índia, iniciado por B. R. Ambedkar. Atualmente, existem mais de 160 milhões de Dalits na Índia.
Desde a década de 1980, sua família teve o privilégio de ter uma câmera e, desde então, passaram a documentar as próprias histórias. Quando começou a pesquisar sobre cultura alimentar, Goody percebeu a ausência de imagens positivas das comunidades Dalit. Imagens que não documentassem apenas as condições desumanizadoras em que muitas pessoas são forçadas a viver. A partir dessa reflexão, a artista passa a buscar as suas fotos da sua família.
Esta entrevista foi realizada com a artista Rajyashri Goody no mês de setembro de 2025 no contexto da Student Week, programa organizado pela 36a Bienal de São Paulo, voltado para pesquisadoras(es) de universidades brasileiras e internacionais. Nesta conversa, discutimos sobre o papel de álbuns e fotos de família na sua prática artística que aborda as políticas de alimentação das comunidades Dalit na Índia.
Raj, quero agradecer por você ter aceito o convite para essa entrevista. O nosso encontro é de uma alegria imensa para mim! Essa colaboração acontece durante a sua participação na 36a Bienal de São Paulo, que também é a sua primeira vez no Brasil. Quando visitei a exposição, pude testemunhar a complexidade, a generosidade e a coragem com que você se dedica à sua obra. A minha proposta é conversar sobre a sua prática artística através de obras produzidas com fotos pessoais e de família. Para começar, eu gostaria de te perguntar: Se você tivesse que se apresentar com apenas uma foto, qual escolheria?
Rajyashri Goody: Eu escolheria esta foto da minha série Eat with great delight (Coma com grande prazer). É aniversário do meu irmão, mas por eu ser a irmãzinha que adorava chamar a atenção, também estou sentada numa cadeira enquanto todas as outras crianças e pessoas convidadas estão sentadas no chão. Minha mãe está ajudando meu irmão a cortar o bolo.
Como começou a sua relação com a arte? Quais artistas inspiram você?
RG: Comecei a fazer obras de arte em 2015, na forma de instalações, durante oficinas e residências artísticas — minha formação em antropologia visual certamente ajudou a reconhecer como diferentes mídias podem transmitir uma mensagem específica. Acabei percebendo que podia aplicar isso também a obras mais escultóricas e instalativas, com muito mais abertura e liberdade do que no contexto acadêmico. Eu sempre fui apaixonada por literatura, especialmente poesia, desde os 9 ou 10 anos, e acho que foi ali que meu relacionamento com a arte realmente começou.
Aprendo e desaprendo muita coisa vendo o trabalho de outras artistas, especialmente de colegas que conheci nas residências e exposições das quais participei. Nos conhecemos por meio de uma amiga em comum, Castiel Vitorino, cujo trabalho eu adoro (nos encontramos no Art Explora, em Paris), e claro, ambas conhecemos Jota Mombaça, com quem passei dois anos na Rijksakademie, em Amsterdã. Aprendi demais com elas! Mais recentemente, na Bienal de São Paulo, fiquei super inspirada por vários trabalhos, especialmente de artistas do Brasil. São tantos nomes que nem dá pra listar!
Como começou o seu interesse pela fotografia?
RG: Eu tinha uns 17 anos. Algumas amigas e amigos começaram a fazer fotos interessantes e aquilo me intrigava. Alguns anos depois, eu tive aulas de fotografia e então, com 22 anos, eu fiz meu mestrado em Antropologia Visual com foco em fotografia e som. Isso consolidou o meu interesse não apenas do ato fotógrafico em si, mas no poder e no conhecimento que as fotos e os processos fotográficos potencialmente possuem.
Uma parte das fotos que você usa pertencem aos seus álbuns de família. Eu lembrei do seu trabalho enquanto lia o livro Image Matters (Imagens importam) da Tina Campt. Ela argumenta que as fotos de família são objetos visuais, hápticos e sonoros. Isso quer dizer que essas imagens não foram feitas apenas para serem vistas, mas também tocadas e escutadas. Quais histórias você tem escutado dessas fotos? Como elas te tocam?
RG: Elas me lembram de certos momentos no tempo, certas relações que se transformaram, pessoas que estavam muito presentes durante meu crescimento, mas não tanto hoje em dia. A presença física delas me aterra.
Isso também acontece porque eu vejo isso de duas perspectivas. Meu pai é de Londres e tem centenas de fotos do lado dele da família, com mais de 100 anos. É muito especial olhar através delas e traçar nossa linhagem familiar dessa maneira.
Por outro lado, foi somente quando meus pais se casaram que minha mãe e o lado dela da família tiveram acesso mais fácil a uma câmera. Antes disso, além de algumas fotografias de estúdio dos meus avós, não havia outras fotos. Esse desequilíbrio me levou a valorizar profundamente nossas fotos de família e, talvez, a tentar ouvir com mais atenção os silêncios contidos nelas.
Seu conjunto de obras oferece um retrato complexo e sofisticado sobre a sociedade indiana, especialmente no que diz respeito ao papel da memória para a comunidade Dalit. Eat With Great Delight (2018) é um trabalho alegre, aconchegante e comovente. Essas imagens fazem parte da sua intimidade, do seu cotidiano familiar. Você cresceu olhando para elas. Ao mesmo tempo, elas fazem parte desse mosaico que é o arquivo visual da comunidade Dalit. Qual é o sabor de comer prazerosamente?
RG: [Risos] Essa é uma pergunta linda! Tem um gosto maravilhoso! Acho que esse é o ponto, não é? Tenho me dedicado a temas como alimentação e casta por muitos anos, com minha pesquisa focada em autobiografias e livros de memória. Conforme eu ia coletando histórias sobre comida, eu comecei a pensar nas minhas próprias fotos de família como um tipo de livros de memórias visual também — e o que elas escolheram registrar? Aniversários, casamentos, momentos felizes da vida. Para mim, isso parece tão parte da vida Dalit quanto qualquer outra.
Uma característica que se repete no seu trabalho é a ideia de alimentação. Receitas, cuias, comida, fotos onde vemos pessoas reunidas para fazer suas refeições. Essa referência aparece em trabalhos como Writing Recipes (Escrevendo receitas) (2016-presente), What is the caste of water? (Qual é a casta da água?) (2017), Eat With Great Delight (2018), Ukadala (2019), Is the water chavdar? (A água é chaydar?) (2022) e Losing all taste (Perdendo todo o sabor) (2023). Comer é algo que fazemos todos os dias, é uma cena familiar. Entretanto, esse gesto aparentemente simples à primeira vista é amplificado pelo conteúdo das receitas, pela forma das cuias, pela fartura presente nas imagens. Como se dá a relação do seu trabalho com a alimentação?
RG: Como você disse, comer é um ato diário, uma cena familiar e íntima. Precisamos comer para sobreviver. E justamente por isso, pode ser usada como uma ferramenta útil ou transformada em arma dentro de estruturas de poder maiores, para controlar e governar as pessoas. Particularmente no sul da Ásia, antigas regras de casta detalham quais alimentos são permitidos ou não para manter a pureza ou a poluição. Não se trata apenas de quais alimentos se pode comer, mas as regras também determinam que, se alguém for de uma casta inferior, sentar-se ao lado de uma pessoa de uma casta superior, uma poluirá a outra. Pagar alguém com sobras e mendigar por comida são práticas baseadas na casta. A capacidade de possuir terras, cultivar sua própria comida, acessar ingredientes frescos, tudo isso é controlado por regras de casta.
Dessa forma, talvez meu trabalho não seja sobre o ato de comer em si, mas sim sobre as circunstâncias que surgem em torno dele. É sobre as experiências Dalit de fome, vergonha, trauma, culpa, raiva, tristeza, ganância, alegria, felicidade, saciedade, banquete e jejum.
Is the water chavdar? (2022/2025) é um trabalho intrigante que discute as políticas da memória a partir de um momento importante na história Dalit, o Mahad Satyagraha em 1927. Uma reivindicação pelo direito ao espaço público e à água que colocava a própria sociedade de castas em xeque. Esse é um evento que, na época, não foi devidamente registrado e fotografado. Essa ausência de arquivos e outros tipos de registro documental e fotográfico é algo que também caracteriza a experiência negra nas Américas. bell hooks afirma que quando a história de um povo é marcada por muitas perdas, o interesse pelos documentos pode se tornar uma obsessão. Como se dá a relação do seu trabalho com o arquivo?
RG: Acho que também sou obcecada por documentos! Como povo Dalit, nossas histórias foram silenciadas pela negação sistêmica do acesso à leitura e à escrita, ao aprendizado de línguas “puras” como o sânscrito, e praticamente sem meios de mobilidade social e, muitas vezes, até física. Também estou ciente de que, apesar desses silêncios, muito trabalho e conhecimento foram produzidos por meio do acesso, mesmo que esporádico, à alfabetização, a alguma forma de mobilidade. É incrível. Por exemplo, o movimento da literatura Dalit só começou de fato no século passado e, ainda assim, possui alguns dos escritos mais fortes que o sul da Ásia já produziu. Muitos das(os) escritoras(es) pertencem à primeira geração de suas famílias que pôde ir à escola, pegar uma caneta e escrever. Elas e eles fizeram a escolha de escrever sobre suas vidas, sobre as vidas Dalit.
Da mesma forma, com a fotografia, imagens de Dalit foram feitas pelos colonizadores britânicos, para nos categorizar e estudar. Elas também foram feitas por pessoas que trabalham para ONGs, talvez para arrecadar fundos. Mas o acesso à câmera só veio muito mais tarde. E o que escolhemos fotografar?
Na minha prática, gosto de ver as possibilidades de construção de arquivo na literatura Dalit, nas fotografias feitas com smartphone, em espaços virtuais como o Google Maps que marcam locais de resistência Dalit, onde fotografias de celebração são coletadas consciente ou inconscientemente.
Para ser mais precisa, antes de dizer que não há muita informação ou documentação disponível, no processo de busca, encontrei muita coisa, e isso é um lembrete de que, apesar dos terríveis contratempos, nosso povo têm tentado conscientemente seguir em frente e reconhecer, reunir e registrar nossas histórias com todos os meios possíveis. Acessar suas histórias é um grande privilégio, então talvez uma noção mais convencional de arquivo se torne redundante.
A cerâmica também é um material recorrente em seus trabalhos. Algumas fotografias estão impressas sobre folhas de porcelana, como Give up your old habits (Desista de seus antigos hábitos) (2023) e The time of greening (2024). É esse material simultaneamente firme e delicado que sustenta a imagem que vemos. Estamos falando de uma peça que pode se quebrar em vários pedacinhos. Como você percebe a relação entre cerâmica e fotografia?
RG: Acho que a noção de arquivo está muito presente nos meus trabalhos que combinam cerâmica e fotografia. Basicamente, eu imprimo fotografias sobre peças de cerâmicas na esperança de que elas sobrevivam por centenas de anos. Como material, claro, as cerâmicas podem se quebrar e despedaçar, mas se elas não caírem, elas têm a possibilidade de durar por muito, muito tempo. Elas funcionam como um arquivo pela sua própria natureza.
As fotos que eu queimo nessas peças de cerâmica são tanto de grandes momentos de celebração e protesto, como também de momentos intimamente mais quietos da minha família. Impressas com tinta para cerâmica, uma vez queimadas, elas se tornam objetos cerâmicos, e esperançosamente, se há fogo, elas não desaparecerão (como se estivessem em papel), mas talvez fiquem mais fortes?
Na 36a Bienal de São Paulo, sua participação aconteceu junto com o grupo Metta Pracrutti, que foi reunido especialmente para participação na Bienal. Inspirada pelo poema De calma e silêncio, da poeta afro-brasileira Conceição Evaristo, a proposta da exposição é discutir a noção de humanidade. Como vocês se reuniram?
RG: Nosso grupo foi formado especificamente para a Bienal, e como companheiras(os), nós compartilhamos posições sociais e políticas parecidas. Na verdade, o nome Metta Pracrutti, pode ser traduzido, de certa maneira, como a criação de um ambiente de bondade amorosa, de Manuski, de humanidade. Nossa inspiração é o Dr. Ambedkar, o líder Dalit que realmente mudou o curso das nossas vidas como pessoas antes consideradas intocáveis. No início do século 20, ele falava sobre Manuski como dignidade humana e afirmava que só recuperaremos nosso Manuski se lutarmos intensamente por ele.
Para a Bienal, também nos inspiramos, é claro, no poema de Conceição Evaristo, mas, ao nos reunirmos como um grupo com este nome, queríamos reconhecer e fundamentar nossa convicção em relação à humanidade e à dignidade humana em uma convicção que remonta a cem anos, graças ao Dr. Ambedkar.
Você propôs a instalação When these scraps are taken away, what do you fight over? (Quando essas sobras são tiradas, pelo que vocês brigam?) (2025) composta por um conjunto de receitas, folhas de porcelana e pães sobre uma grande área de polpa de papel. Como foi realizar este projeto na Bienal?
RG: Nossos trabalhos individuais presentes na Bienal foram criados no intuito de oferecer essa perspectiva sobre nossa comunidade para visitantes do outro lado do mundo. Meu trabalho, especificamente, reúne boa parte da minha pesquisa sobre comida e literatura Dalit, sobre o poder da palavra escrita, com a presença inerente de um arquivo na cerâmica. A polpa de papel que está espalhada pelo chão é feita a partir de textos religiosos da Índia e de livros brasileiros que encontrei em São Paulo. Quando eu os combino, crio uma espécie de mar de papel, apagando suas palavras, tornando-os planos de novo.
Mas, no intuito de criar essa superfície plana, elas formam uma espécie de paisagem, um lembrete de quão difícil é escapar realmente de estruturas de poder que estão impregnadas no dia a dia.
As peças de cerâmica que lembram a forma de comida e elementos da natureza repousam sobre a polpa de papel, às vezes parcialmente submersos ou espalhados. E sobre as prateleiras que oferecem uma vista para esse mar de papel estão receitas de autobiografias Dalits que eu tenho colecionado e transformado há alguns anos. Elas oferecem um tipo de narrativa para o papel e para as cerâmicas, um guia, mas também servem como evidência de resistência a esse poder, de seguir em frente apesar de tudo que trabalha para nos puxar de volta para o sistema de castas. ///
Rajyashri Goody (Pune, 1990) é artista. Mestre em Antropologia Visual pela University of Manchester e bacharel em Sociologia pelo Fergusson College. Seus interesses de pesquisa incluem políticas de alimentação e água, práticas budistas ambedkaritas, literatura Dalit, mobilidade no contexto da violência baseada em castas e da resistência Dalit na Índia. Seus materiais são principalmente polpa de papel, argila, texto, fotografia e gravura. Seu trabalho foi apresentado recentemente em exposições como a 36a Bienal de São Paulo e a Bienal de Sharjah.
Rodrigo Lopes (Fortaleza, 1995) é arte/educador, pesquisador e curador. Doutorando e mestre em Arte e Educação pela UNESP (bolsa CAPES) e bacharel em Comunicação Social pela UFC. Sua pesquisa investiga os usos e sentidos do álbum de família na arte/educação e na arte contemporânea. Coordenador do LAC – Laboratório de Arte Contemporânea e membro do NUPE – Núcleo Negro de Pesquisa e Extensão (UNESP). Colabora como crítico para a revista Terremoto (MX). Foi pesquisador da exposição Dos Brasis: Arte e pensamento negro (2022). Foi pesquisador residente na Pinacoteca do Ceará (2023) e na 36a Bienal de São Paulo (2025). Em 2026, foi curador residente na Galeria Luis Maluf e no Paço das Artes.
Referências
CAMPT, Tina. Image Matters: Archive, Photography, and the African Diaspora in Europe. Duke University Press, 2021.
COSTA, Rodrigo Lopes. Álbum de família na arte/educação: Matéria de ficção. 2022. Dissertação (Mestrado em Artes) – Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho”, 2022. Disponível em: http://hdl.handle.net/11449/238744
FUNDAÇÃO BIENAL DE SÃO PAULO. 36ª Bienal de São Paulo: Nem todo viandante anda estradas: Da humanidade como prática: catálogo. São Paulo: Fundação Bienal de São Paulo, 2025.
hooks, bell. Em nossa glória: Fotografia e vida negra. Tradução de Rodrigo Lopes. Revisão de Val Souza e Rita Bredariolli. Academia.edu, 2024. Disponível em: https://www.academia.edu/124643373/_Tradu%C3%A7%C3%A3o_Em_nossa_gl%C3%B3ria_Fotografia_e_vida_negra_bell_hooks_1995_. Acesso em: 10 set. 2025.
Rajyashri Goody (Site). Disponível em: https://www.rajyashrigoody.com/. Acesso em: 10 set. 2025.
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